A passos lassos

A passos lassos

Parou quando seus pés deram no meio-fio. Ali pisaram e ali ficaram, com os calcanhares se descolando hesitantemente da beira da calçada e os dedos se agitando no ar, para fora dos sapatos rasgados. Nesse vai e vem, seus olhos se fechavam a intermitências, como se ele fosse tirar uma soneca enquanto decidisse o que fazer daquele ponto em diante.

 

O que acabou fazendo foi um sinal com a mão, de que queria atravessar a rua. Era um sinal de “jóia”, com o polegar estendido e os demais dedos dobrados, com que ele brindava os veículos mais próximos, acompanhado de uma piscadela de olho, que não se sabe se era uma pálpebra que se fechava com intenção, ou que não se abria mais de cansaço.

 

Talvez por falta de convicção no gesto, ou por causa da distância, ou por culpa de muita má vontade mesmo, os motoristas que se aproximavam não sabiam direito o que ele pretendia, e não reduziam a velocidade para incentivá-lo a lançar-se no asfalto. E ali ele ficava, com os pés em equilíbrio precário na calçada, balançando no vácuo com o dedão em riste.

 

Magoado, ao que parece, com a pouca consideração dos automobilistas, ele começou a girar sobre os calcanhares, como se fosse dar as costas para o tráfego. Sua perna, no entanto, decidiu diferente, e esticou-se num movimento letárgico para forçá-lo a descer da guia. Os vetores opostos da perna e do tronco enroscaram-se no quadril e deslizaram para lados contrários, arrastando outra perna, braços e pescoço, feito esquartejamento em câmera lenta.

 

Suspenso ali na borda do lancil, o monumento à indecisão finalmente atraiu a atenção dos condutores, que foram parando lentamente para assistir ao espetáculo da estátua retorcida que ganhava o bitume e superava uma a uma as faixas brancas pintadas no chão. Cambaleando, ele descreveu sua rota em direção ao outro lado da rua, destino que naquele momento parecia tão remoto quanto o outro lado do oceano.

 

Antes de alcançar o passeio defronte, parou no meio da via, retirou o gorro ensebado e deu uma coçadinha no cocuruto. Não dá para dizer ao certo, mas era como se, de repente, numa lufada de lucidez, ele saboreasse o meio da travessia, a vitória de ter empreendido e a sensação de estar vivo.

 

Na guerra de trincheira que é o trânsito, a sobrevivência é incerta. Porém, naquela manhã abafada, a má sorte cochilou, nenhuma circunstância adversa prevaleceu, nenhuma estatística de acidentes teve o prazer de aumentar, e o tropeçudo chegou ao outro lado da rua ileso, ou melhor, não mais nem menos alquebrado do que já estava.

 

Para agradecer a todos os fatores do universo que confabularam a seu favor, ou movido, quem sabe, pela mais genuína incredulidade, ele olhou para trás, fitando sem compreender a margem de onde saíra. Acompanhou com a cabeça, vai e vem, o fluxo dos carros que se punham de novo em movimento. E, esquecendo o motivo que o levara a percorrer o caminho, ergueu o pé bamboleante para voltar ao outro lado.

 

 

José Ignácio C. Mendes Neto

Urbanografista

jicmendes@gmail.com

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