Cordel: Arte, ofício e show

Com esta matéria o Centro em Foco passa a dedicar espaço mensal em uma de suas páginas à “Literatura de Cordel”

Escrita em forma rimada  a Literatura de Cordel, ou “Poesia  de Cordel”, foi trazida para o Brasil pelos portugueses, ainda no século XVIII, sendo que na segunda metade do século XIX já era produzida com características próprias, que evoluíram rapidamente tirando-lhe a forma de folhetos (geralmente duas grandes folhas dobradas em quatro), que eram pendurados em barbantes, para produzi-la em livretes, que continuaram a ser pendurados. Quanto aos temas, inicialmente, não mudaram muito: quase sempre versavam sobre fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas e assuntos religiosos – comumente, com alguns poemas ilustrados em xilogravuras, no mesmo estilo de gravura usado nas capas.

Hoje, nacionalmente considerada gênero literário, a “Poesia de Cordel” possui academia própria – a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com 40 cadeiras -, é tema de estudo em renomadas universidades, como  a Sorbonne (da França) e a UCLA (Califórnia  USA), é pesquisada e debatida em ciclos literários, tem presença quase diária em alguns grandes veículos de comunicação do país, porém continua, para a maior parte da população brasileira, uma arte produzida e exercida no nordeste, como continuasse regionalizada – não sendo mais assim, por pelo menos duas décadas: embora tipicamente daquela região, em especial dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, tem presença forte no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Para ocupar o patamar de que é digna, ao lado dos demais gêneros literários, falta-lhe, tão somente, visibilidade na mídia nacional.

A história da “Literatura de Cordel” dispõe de um grande número de poetas, que são chamados “cordelistas”. Entre os mais famosos estão: Apolônio Alves dos Santos, Firmino Teixeira do Amaral, João Ferreira de Lima, João Martins de Athayde, Leandro Gomes de Barros e Manoel Monteiro. Nascido em 1865 e falecido em março de 1918, o paraibano Leandro Gomes de Carvalho é considerado o “poeta maior” do Cordel – ele deixou aos cultores e demais autores do gênero, um legado de cerca de mil folhetos escritos. Arievaldo Viana Lima , outro poeta conhecido no cenário nacional, nasceu em 1967, em Quixeramobim (CE), começou a publicar seus folhetos em 1989, aos 22 anos, mas hoje é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, onde ocupa a cadeira nº 40, tendo sido criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, realizado em escolas de diferentes municípios do Ceará, com o fim de alfabetizar crianças e adultos.

Costa Senna, um “Cordelista show”, comemora 27 anos de São Paulo.

Próximo de completar 30 anos de militância artística em São Paulo, o poeta, compositor e cantor cearense Costa Senna é um dos, ainda pouquíssimos, cordelistas que vivem do seu trabalho literário. Trabalho esse que inclui a música, pelo fato de muitas de suas composições cordelianas ganharem versões musicais, inspirando a concepção de belas melodias. Com 14 livros e, aproxidamente, 100 cordéis publicados, 6 CDs gravados e com elogiadas atuações no teatro, em peças como “A Noite Seca”, de Geraldo Markan; “Barrela”, de Plínio Marcos; “Deus lhe Pague”, de Juracy Camargo, e “O Caldeirão”, de Oswald Barroso, e no cinema: “Educar para Transformar”, documentário sobre Paulo Freire, da cineasta Tânia Quaresma; “Nísia, Paulo e Josué – Oficina de Memória”, documentário (longa), também de Tânia Quaresma, e “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thoth, ficção do cineasta Jairo Ferreira.

Curador do Sarau Bodega do Brasil, que criou, em 2009, ao lado de Luiz Wilson (Rádio Imprensa FM), Júbilo Jacobino, Cacá Lopes, Ornela Jacobino, Daniela Almeida e Fatel Barbosa, o cordelista Senna foi pioneiro em várias situações e momentos no exercício dessa expressão cultural que é o Cordel. Entre eles, é um dos pioneiros na popularização da “Poesia de Cordel”: são até o presente mais de mil atuações em escolas, registrando parcerias com os poetas Moreira de Acopiara e Cacá Lopes, em parte delas.    

Para Expedito Duarte, o conhecidíssimo “Mano Novo”, da dupla de apresentadores “Mano Véio, Mano Novo” (do “Forró da Nativa”), Costa Senna é quem sistematizou, em São Paulo, essa atividade de declamação da poesia de Cordel em praças públicas e escolas. “Tivemos a felicidade de ter a participação de Costa Senna em diversos eventos  do ‘Mano Véio, Mano novo’, quando atuávamos na Band AM. O projeto nas quebradas do sertão, nos anos 1983/84, começou em praça pública fazendo muito sucesso, então acabou indo para o Rádio. Na época, não encontrávamos ninguém declamando cordel  em São Paulo. No final dos anos 1980 conhecemos o Costa Senna declamando sua poesia nos espaços públicos, com muita competência – dentro da técnica – e com grande expressividade, envolvendo todo o público que o assistia. Então, levamos ele para se apresentar no Teatro das Nações, Memorial da América Latina, além de o indicar para apresentações em muitos outros lugares”.

“No início dos anos 80 conheci Costa Senna cantarolando as ânsias e frustrações do povo cearense em escolas, palanques e teatros. E algo que sempre chamou a atenção dos trabalhadores da cultura em Fortaleza (CE) foi a sua preocupação com a Pedagogia. Pois embora, na condição de artista, experimentasse o aqui e agora, ele acreditava que poderia fortalecer laços nas bases docentes, discentes e familiares. Desde 1981 acompanho a sua trajetória, marcada pela declamação de seus cordéis, que educam e transformam”, diz a educadora Bel Lopes (Isabel Cristina Lopes).

Sobre o poeta e jornalista Vanda José (ex-coordenadora de saraus da Sociedade dos Poetas Vivos, do Círculo dos Trabalhadores Cristãos de Vila Prudente), conta: Costa Senna é um cordelista de primeira, além de ator, cantor e compositor. Chegou em Sampa com cara e coragem para enaltecer esta cidade com seus cordéis altamente inspirados. Apaixonou-se pela cidade desde que nela chegou e então, incansavelmente, passou  a cantá-la, através de cordéis descritivos e educativos, com a exatidão nas rimas”. 

“Eu organizava a Semana de Cultura Hip Hop em São Paulo e na programação quisemos mostrar as origens nordestinas do RAP (Ritmo e Poesia, na tradução do inglês). Assim, reunimos dois grandes nomes, o cordelista Costa Senna e o rapper Gaspar do grupo Záfrica Brasil – juntos eles formaram o RAPente. Desde então, o RAP, nascido nos anos setenta nos bairros negros e pobres de Nova Iorque, nos EUA, ganhou também uma gênese brasileira e nordestina. Tenho grande admiração pelo Senna e tive o prazer de ter sido um dos responsáveis por levá-lo, em 2013, para a maior feira literária da América Latina, em Buenos Aires, na Argentina” Ruivo Lopes, poeta e programador cultural”.

Para esta matéria, que inaugura o espaço conquistado pelos cordelistas, além dos registros nela contidos, o Centro em Foco colheu depoimentos de diversos outros profissionais da Educação, Cultura e Jornalismo: Ana Fonseca, Angela Dizzioli, Antonio Carlos Fonseca Barbosa, Antonio Eleilson Leite, Carlos Bigode, Daniela Bontempi, Escobar Franelas, Gilberto Lobato, Léo Ramos, Lika Rosa, Luana Oliveira, Maria Célia Munarin, Nicanor Jacinto, Pompeu Soares Sobrinho e Sílvio Passos, que acompanharam ou acompanham a trajetória de Costa Senna, por alguma relação com EMEFs (Escola Municipal de Ensino Fundamental), unidades de EIJA (Educação de Jovens e Adultos), CEUS, Teatros, Parques, Centros Culturais, SESC e UBE (União Brasileira de Escritores) e que, por isso, fazem coro com aqueles que o batizaram “Cordelista show”.

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