Caminhos Cruzados – Um capítulo esquecido da História

Caminhada Noturna no Centro

 

O livro Caminhos Cruzadosa vitoriosa saga dos Judeus do Recife, da Espanha à fundação de Nova York, lançado em 2015 pelo jornalista e escritor Paulo Carneiro, inspirou a carnavalesca Rosa Magalhães, que após fazer sua leitura o adotou para subsidiar o enredo da Portela – escola de samba carioca -, levando-o ao Sambódromo do Rio com o título “De repente de lá pra cá; dirrepente de cá pra lá”.

 

De acordo com o autor, ouvido pelo Centro em Foco durante a Caminhada Noturna pelo Centro, em 15/02, “pela primeira vez, as cortinas do passado foram abertas para resgatar o legado da comunidade formada no Nordeste durante o período holandês, entre 1630 e 1654. A carnavalesca Rosa Magalhães lançou um apelo à irmandade entre os povos, trazendo a Estátua da Liberdade como símbolo da hospitalidade, em contraste com a xenofobia”.

 

“Também pela primeira vez, a invasão holandesa é observada do ponto de vista judaico. Não sem motivos, o foco sempre recai sobre o conde Maurício de Nassau e sua corte de artistas, com Franz Post, Albert Eckhout e Willem Piso à frente. Não obstante, o Recife chegou a ter até 5 mil judeus, para uma população total de 9 mil habitantes”, completa Carneiro.

 

Esses milhares de judeus eram imigrantes em busca de oportunidades e da liberdade religiosa. Sob o governo batavo, eles dominaram o comércio, principalmente nos seguimentos do açúcar e tabaco, dedicando-se ainda à coleta de impostos. Dentre eles ganharam destaque o médico e boticário Abraão de Mercado, que além de clinicar, produzia e vendia medicamentos, e Manuel Nunes, que ficou conhecido após salvar dezenas de vidas no navio que o trouxe ao Brasil.

 

Os judeus construíram no Recife a primeira sinagoga das Américas, a Zur Israel, assim como o primeiro cemitério israelita. Para cá vieram dois dos mais promissores rabinos de Amsterdã, Isaac Aboab da Fonseca e Raphael D’Aguiar.

 

Em 1654, os portugueses retomaram o poder no Brasil, então, ameaçados pela Inquisição, os judeus tiveram de sair do país às pressas. Muitos seguiram para as Antilhas, outros para a Europa. Foi assim que 23 refugiados desembarcaram na colônia de Nova Amsterdã (hoje Nova York), dias depois celebraram o primeiro Rosh Hashaná da história norte-americana e, mais tarde, com sotaque português, fundaram a segunda maior comunidade judaica do mundo, fora de Israel. Esse relato encontramos em Caminhos Cruzados.

 

JCF – O livro que impressionou a carnavalesca e inspirou o enredo da Portela deste ano, tem como narrativa a vida de uma pequena comunidade judaica, que, praticamente, não aparece na história do Brasil, é isso mesmo, não?

 

PC – Em Caminhos Cruzados, meu tema é a trajetória dos judeus expulsos da Espanha em 1492, uma das páginas mais tristes da história. Centenas de famílias ficaram sem abrigo de uma hora para outra. Na realidade, era gente de diversas profissões, como engenheiros, mecânicos, boticários, astrônomos, médicos e professores, homens e mulheres de boa formação.

 

A maioria seguiu para Portugal em busca de um lar tranquilo, mas não foi o que ocorreu. Logo na chegada, o rei D. João II deportou 2 mil crianças judias para colonizar a desértica ilha de São

Tomé, na África, levando os pais ao desespero. A situação piorou quando D. Manuel I, sucessor de D. João, decretou a conversão forçada ao cristianismo, criando a categoria dos cristãos-novos, para diferenciar dos cristãos tradicionais.

 

JCF – Como falamos, a comunidade judaica da sua narrativa não ganhou visibilidade na história do nosso país, mas o país entrou na vida dela, acabando por mudá-la… foi assim mesmo?

 

PC – Os judeus vieram para Pernambuco com os holandeses em 1630. Eram especialistas no ramo do açúcar, na ourivesaria, na indústria gráfica e outras habilidades, com a vantagem de falar português. Em um quarto de século, construíram uma rica comunidade, mas foram expulsos quando os portugueses reconquistaram o poder em 1654. Na fuga, 23 refugiados desembarcaram em Nova Amsterdã, atual Nova York, em 7 de setembro de 1654. Fundaram a comunidade judaica americana, hoje a segunda maior do mundo depois de Israel.

 

JCF – Não há uma bibliografia brasileira que refere a história dessa comunidade, portanto houve necessidade de árduo trabalho para conceber seu texto. Conte-nos como isso aconteceu e fale um pouco do lançamento da obra.

 

PC – Passei cerca de dois anos mergulhado na pesquisa e elaboração do livro. Entre as dezenas de fontes consultadas, destaco os historiadores Charles Boxer, Meyer Kayserling e Anita Novinski. Na parte referente aos Estados Unidos, meu principal consultor foi o professor Howard Rock. Depois de concluídos, mandei os originais para diversas editoras. Recebia sempre a resposta pronta de que o livro era bom, mas não havia espaço na programação. Fiz o lançamento em 2015, por uma pequena editora carioca, a Autografia, na sinagoga Beit Yaccov, em Higienópolis.

 

Em 2016, a obra foi selecionada para publicação pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), ligada à imprensa oficial do Estado. Era tudo o que eu queria. Mas ainda não há data para a publicação. Nesse intervalo, o livro foi escolhido para inspirar o enredo da Portela. Fiz uma nova edição, agora pela Haikai, de São Paulo.

 

Com o livro fora do circuito do mercado formal, modesto e generoso, Paulo Carneiro atribui o sucesso do livro ao apoio de empresários e amigos, como Jairo, da livraria Sêfer, em São Paulo, Jacob, da Imperatriz, no Recife, e Carlos Beutel, proprietário do restaurante vegetariano Apfel e organizador da Caminhada Noturna pelo Centro. Ele conta que a divulgação boca a boca tem sido eficiente: “A cada dia crescem os pedidos de exemplares e os votos de apoio. Dedico essa obra aos meus antepassados e ao oceano Atlântico, que testemunhou todas as etapas da história”.

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