Carnaval sem bombas?

Queremos uma festa popular, democrática e livre…”
manifesto “A Roosevelt pede paz”

 

Antonio Freitas

Terminado o carnaval, pode-se dizer que houve relativo sucesso no chamado por respeito e paz organizado por ativistas do centro de São Paulo. A Praça Roosevelt, conhecida área de cultura e lazer que no carnaval funciona também como espaço para dispersão, foi poupada das bombas e gases que nos últimos anos eram jogados sobre a indefesa população. A exceção parece ter sido no último dia, quando exatamente à meia-noite, aparentemente sem motivo, a polícia brindou os poucos jovens que permaneciam por ali com um espetáculo de agressões desnecessárias, felizmente sem deixar feridos com maior gravidade.

 

Esse tipo de ação militar é estimulada por pequena facção radical de “cidadãos de bem” que, em articulação com jornalistas e políticos, deseja impor regras draconianas sobre o espaço público. É de se lamentar. Ao invés de diálogo para busca de entendimentos, abundam acusações, agressões e incitação à repressão oficial. São vândalos da democracia. O triste é que esses pequenos grupelhos encontram ressonância numa sociedade amedrontada e com pouco hábito de participação política.

 

No caso específico da Roosevelt, alguns assinalam que o estímulo à violência policial reflete preconceitos de uma sociedade escravista: muitos dos jovens que frequentam a praça vêm das periferias. Outros ponderam que há interesses do mercado imobiliário: espaços de acesso e uso restritos ficam como jardins privados dos novos prédios que vêm sendo erguidos pela região. As imobiliárias, que financiam campanhas políticas, jornais e algumas associações de bairro, beneficiam-se da localização central, do transporte público, dos equipamentos culturais, e procuram fazer das forças policiais feitores de suas fazendinhas.

 

Destaco ponto trágico, mas nenhuma novidade em nossa história: os policiais vêm das classes sociais que reprimem. O pobre batendo no pobre a mando do rico. É triste, mas é assim que o Brasil foi construído. Permitam-me a comparação com certos paneleiros que berravam por aí emprestando seu apoio a um golpe que atacou seus próprios direitos e tem recolocado o país em posição servil e colonial. Um gol contra, uma desinteligência completa, algo impensável em sociedades mais maduras e equilibradas.

 

Enfim, carnavalizando novamente o texto, cá estamos sob as trevas do Vampiro da Sapucaí. Pessoal, precisamos de eleições, democracia, liberdade, empatia com o povo, desejos de um futuro coletivo melhor. O cenário é grave. Vejam só vocês, já alertei nesse espaço que, tal qual em 1964, o que era para ser uma ilegalidade precisa e rápida – o impeachment – vai se aprofundando, dia após dia, passo a passo, numa espiral de mentiras, improvisos e autoritarismo.

 

Ora, nós que celebrávamos a possibilidade de um carnaval sem bombas, e eis que de repente, passada a quarta-feira de cinzas, os militares voltam à ribalta na política. Pergunto a você, leitor: essas intervenções no Rio de Janeiro alguma vez já deram certo? Alguém realmente acha que conseguirão enfrentar “inimigos” que nasceram e cresceram no seio daquelas comunidades pobres? São jovens: o Exército vai aniquilá-los? Isso vale para criminosos do colarinho branco também? Ora, alguém tem dúvida de que nossos problemas são muito mais graves e complexos?

 

Parece-me claro que se trata de desviar a atenção, criar ambiente de medo, manipulando emoções para facilitar assim os planos eleitorais de algumas das tristes figuras que desgraçadamente comandam a política nacional. A população assustada, carente de respostas para a insegurança, infelizmente apoia esse tipo de medida, mas lamento, não vai resolver nada e abre as portas para pretensas soluções ainda piores.

 

As serpentes a rastejar: o golpe, ilegalidades e seletividade do Poder Judiciário, perseguição a advogados e adversários políticos, regras eleitorais que dificultam a renovação… Vão mesmo prender o Lula enquanto seus oponentes, sob acusações mais graves, seguem soltos e ativos? Como explicar isso para a população? Por que não cancelam de uma vez as eleições e entregam o país para uma junta de financistas e militares? Alguém realmente acredita que essa escalada autoritária, num país pobre e desigual como Brasil, pode acabar bem?

 

“A única coisa da qual devemos ter medo é do próprio medo”
Franklin D. Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos  entre 1933 e 1945

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