Outros faróis

José Ignácio C. Mendes

Um rapaz no farol vende balas, pendurando os saquinhos no retrovisor dos automóveis imobilizados. “Bom dia, campeão”, ele dispara, sempre jovial, com mãos ágeis e pés ligeiros. Retorna correndo para o começo da fila e volta recolhendo a mercadoria. “Obrigado, obrigado”, ele prossegue, sempre veloz, sem desanimar com o mau humor dos motoristas. Se ganha pouco dinheiro, ganha sempre o troféu da perseverança. O farol abre e ele ziguezagueia entre os carros que se movimentam impacientes.

 

Um malabarista faz uma bola de vidro escorregar pelos seus braços como se ela tivesse vida própria. Cada reflexo que a bola emite forma gotas de beleza palpável. Por um momento, os automobilistas se esquecem que estão trancados nos seus veículos, investindo em varizes. Mais que uma moeda, o que o malabarista deseja é um sorriso, um aplauso, um aceno. O que o faz continuar é a esperança de que, na próxima esquina, algum motorista se lembre da bola de vidro deslizando suavemente e acelere com menos fúria.

 

Nos dias de frio, é a vez do engolidor de fogo, que faz jorrar chamas na noite e baba querosene no tórax reluzente. De todos que batalham nos faróis, talvez seja o que menos espanta. Qualquer um que vive na cidade engole sapo, espada, vidro, raiva, gilete, frustração. Nem todos cospem fogo, mas muitos saem por aí cuspindo palavrões e buzinadas na cabeça dos outros. Quem procura lhes oferecer uma chance de empatia, na forma de bala, bola de vidro ou labareda, para aliviar a tensão do cotidiano, comete um ato de amor e de coragem.

 

José Ignácio C. Mendes
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