Motim

Antonio Freitas

“Todas as razões para fazer uma revolução estão aí. Não falta nenhuma. O naufrágio da política, a arrogância dos poderosos, o reino do falso, a vulgaridade das riquezas, os cataclismos da indústria, a miséria galopante, a exploração nua, o apocalipse ecológico – de nada somos poupados, nem mesmo de estar informados sobre isso… Todas as razões estão reunidas, mas não são as razões que fazem as revoluções, são os corpos. E os corpos estão diante das telas.” Comitê Invisível

 

Bom dia, boa tarde, boa noite, prezada leitora, caro leitor, habitantes do Planeta Azul, o Planeta Terra, maltratado por Estados, mercados, combustíveis fósseis, cimento, exploração e devastação. Por onde passa o bicho-homem, o cenário é de dominação dos semelhantes e destruição da natureza. Dinheiro, poder, muita ideologia e uma boa dose de violência. Assim caminha a humanidade.

 

Bem-aventurados sejam os povos indígenas do Vale do Javari, do Alto Juruá, nas fronteiras com o Peru, e outros tantos grupos isolados que há séculos evitam o contato com a “civilização”. Estão hoje ameaçados, encurralados, em circunstâncias bastante trágicas e desesperadoras. Vejam só vocês, amig@s, a situação que historicamente foi sempre muito ruim, com o extermínio a que foram submetidos ao longo dos séculos, tornou-se ainda pior.

 

Explico: desgraçadamente, o golpe não apenas minou a credibilidade das instituições e arranhou a fé que muitos tinham na democracia; ele significa muito mais, vai além, muito além, em vários campos. No caso em questão, alguns dos grupos que tomaram o poder – no tapetão, não no voto – cortaram as verbas da Funai – órgão de acompanhamento e proteção dos índios – e colocaram o governo federal a serviço de mineradoras, madeireiras, grandes pecuaristas, monocultores, entre outros. Muitas conquistas que os povos indígenas tiveram desde fins da década de 70, desde a Constituinte, têm sido violentadas por elementos do golpe, cidadãos sem qualquer legitimidade, mas com poderosas forças e interesses a lhes dar guarida.

 

Para onde quer que se olhe, o cenário é muito complicado. A política econômica anda de lado. Estamos fazendo um ajuste que não deu certo em nenhum lugar do mundo. Na verdade, ele é feito para não funcionar, para jogar a conta da crise no lombo dos trabalhadores, dos mais pobres, daqueles que dependem da assistência social. A política externa brasileira, por seu turno, está muito enfraquecida, sujeita ao jogo partidário, uma tristeza. Como consequência, nossa voz desapareceu do cenário internacional. Não somos convidados nem mais para o cafezinho entre as grandes potências.

 

O que dizer do sinistro Michel Temer e de seu grupo político? O que dizer dessas malas de dinheiro que escarnecem da população? E o PSDB, que tanto falava em ética e combate à corrupção, tão disposto a criticar o PT, hoje se cala diante de acusações ainda mais graves que pesam sobre boa parte de suas lideranças. E todos esses grupos empresariais brasileiros (e estrangeiros) que colocaram suas forças, e por vezes seu silêncio envergonhado, a serviço do golpe e da instalação de um programa político devastador? Um projeto antipopular, antinacional e antidemocrático, foi isso que urdiram na calada da noite e hoje tentam colocar em prática com desfaçatez.

 

Bom, felizmente aqueles que acreditaram no impeachment já perceberam que foram ludibriados por uma tramoia, uma conspirata. A população sabe que foi enganada. Entretanto, o golpe não acabou aqui, lamentavelmente. Tal qual em 1964, a ruptura institucional vai criando problemas em cima de problemas e as soluções são cada vez mais farsescas. Além da impugnação da candidatura do Lula, que tentarão de todo modo, circulam projetos para mudar o sistema político brasileiro. Há também emendas constitucionais e acordos internacionais que procuram limitar as alternativas de ação de um novo governo democraticamente eleito.  No plano simbólico, ideológico, tudo que não esteja de acordo com os desígnios do 1% que controla a economia e a política nacional é chamado de populismo.

 

“CHEGA DE ESPERAR.
CHEGA DE TER ESPERANCA.
CHEGA DE SE DEIXAR DISTRAIR, DERRUBAR.
INVADIR.
ENCURRALAR A MENTIRA.
ACREDITAR NO QUE SENTIMOS.
AGIR DE ACORDO.
FORÇAR A PORTA DO PRESENTE.
TENTAR. FRACASSAR. TENTAR DE NOVO.
FRACASSAR MELHOR.
TEIMAR. ATACAR. CONSTRUIR.
TALVEZ VENCER.
EM TODO CASO, SUPERAR.
SEGUIR SEU RUMO.
VIVER, PORTANTO.
AGORA.”

 

Antonio Freitas
Diplomata e gestor da
Tapera Taperá

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