Apertem os cintos, o prefeito sumiu

Antonio Freitas

“O governo que hoje comemora seu primeiro aniversário é um construtor de promessas e um demolidor de ilusões.“

Mario Covas, em 1968, enfrentando a ditadura militar

 

A vizinhança que acompanha o Centro em Foco talvez tenha notado que jamais mencionei João Doria em meus artigos. Muito embora eu faça parte da comunidade do jornal, ótimo veículo para se discutir sobre o bairro, a cidade e a vida das pessoas, acabo, talvez por cacoete da vida diplomática, me debruçando com mais frequência sobre questões nacionais.

 

Há também uma razão mais específica: sempre achei que deveria dar um tempo ao novo prefeito. É preciso algum espaço, um período de adaptação, deixar a bola rolar antes de qualquer avaliação. No caso dele, a incógnita era grande: um apresentador de TV, com breve e desastrada passagem pela Embratur (1987-88), fora eleito no primeiro turno com cerca de um terço dos votos dos eleitores paulistanos. O que esperar? Não sei…

 

Confesso que já vinha com certa desconfiança. Antes mesmo da eleição, Doria foi acusado por companheiros de PSDB de ter comprado votos e atropelado regras internas. Apresentou-se à população como trabalhador, uma evidente mentira. Dizia-se empreendedor, mas suas empresas não produzem um parafuso ou algo assim: seu grupo promove encontros entre políticos e pessoas com muito dinheiro. Sua campanha trazia promessas sem muita fundamentação e projetos sem detalhamento. Respirava-se um marketing de fácil apelo, no qual o compromisso com a verdade costuma ser escasso. Ainda assim, com todas essas cautelas, era preciso esperar um tempo para ver no que ia dar, e foi isso que fiz.

 

Pois bem, passados quase 10 meses, o quadro é muito insatisfatório. João Doria tem se mostrado um personagem pouco acostumado à vida democrática. Já são diversos casos de bate-boca com a população e de agressões a jornalistas e companheiros de partido. Desleal com o Governador Geraldo Alckmin, desleal com o ex-Prefeito Fernando Haddad, ele curiosamente segue junto, um verdadeiro amigo, do governante mais corrupto e impopular da história do Brasil, o sinistro Michel Temer.

 

É gozado: Doria foi eleito dizendo ser contra a corrupção. Uma vez prefeito, atacou a Controladoria e demitiu o Secretario do Verde, que investigavam propinas e máfias na administração municipal. Afirmava ser um bom gestor, mas não consegue realizar licitações básicas, como a dos semáforos.  Prometeu uma cidade linda, mas os problemas com zeladoria parecem estar se agravando.

 

Enquanto viaja a todo instante, o prefeito curte vídeos em redes sociais e investe pesadamente nosso dinheiro em propaganda. A população, entretanto, precisa de comprometimento e resultados. Culpar o antecessor é uma saída simplória e por vezes desonesta: Doria afirmou ter herdado rombo de alguns bilhões da gestão passada, uma mentira que pode ser facilmente contestada. Uma jogada pouco republicana na qual nem seu próprio Secretario de Finanças embarcou, recusando-se a confirmar o número (na verdade, havia mais de R$ 5 bilhões em caixa na virada do ano).

 

Olha, pessoal, vou evitar falar da distribuição de ração para os pobres e estudantes, violências contra quem dorme nas ruas, privilégios aos amigos empresários, falta de compromisso com as muitas tarefas a que se propôs quando se candidatou. Não vou me estender sobre seu moralismo oportunista, a maneira como flerta com movimentos de índole autoritária, alimentando assim a escalada do ódio no país. Paro por aqui, pois não escrevo nada disso com alegria. É na verdade bastante triste, lamentável que tenha que ser assim, e a população com razão fica decepcionada.

 

Doria foi eleito prefeito, portanto seria bom que levasse a sério o cargo que lhe foi confiado. Com mais experiência, poderá aprimorar o estilo e a forma de administração. Visitar mais as periferias, se engajar no desenvolvimento da cidade. Evitar planos mirabolantes e campanhas de marketing, trabalhar duro e assumir responsabilidades. Há tempo para isso, são mais três anos de mandato. Traria benefícios a todos paulistanos, e a ele próprio, tenho certeza. Vamos torcer para que calce as sandálias da humildade e cumpra bem as importantes funções para as quais foi escalado.

 

Ninguém vive na União ou no Estado, as pessoas vivem no Município.”

André Franco Montoro, fundador do PSDB e ex-Governador do Estado de São Paulo

 

Antonio Freitas
Diplomata e gestor da
Tapera Taperá

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