Assim caminha a humanidade

Assim caminha a humanidade

“Olho por olho e o mundo acabará cego” (Mahatma Gandhi)

 

Amiga leitora, amigo leitor, completamos, no último dia 6 de agosto, 72 anos da bomba atômica lançada sobre o povo japonês em Hiroshima. Data triste da história da humanidade. Três dias depois, um segundo artefato foi lançado sobre a indefesa população de Nagasaki. São crimes que nunca serão esquecidos.

 

O quão longe estamos de repetirmos as dores de um conflito nuclear? Não sei bem. Gostaria de ser mais otimista. Mas o mundo está em crise, são múltiplas crises, há riscos, zonas de conflito e tensões diversas. Se é difícil prever o que acontece internamente nos países, no que se refere ao equilíbrio e as lutas entre as nações a tarefa é ainda mais complicada.

 

Acredita-se que sejam nove os atuais detentores de armamento nuclear: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. Todos, em maior ou menor grau, estão envolvidos em disputas importantes. A posse dessas armas de destruição em massa serve como ameaça a adversários: aqueles que ousem ultrapassar determinados limites, ou iniciem um ataque, saberão que a resposta será impiedosa, e provavelmente definitiva.

 

Nos últimos dias, cresceu bastante a tensão no leste asiático. O regime norte-coreano, herança da Guerra Fria, reagiu mal às declarações habitualmente estapafúrdias do novo Presidente dos Estados Unidos, o biliardário e ex-apresentador de TV Donald Trump. Kim Jong Un, o não menos esquisito líder local, talvez por se sentir acuado ou por necessidade de afirmação, resolveu então testar um míssil balístico de longo alcance.

 

Supostamente, o armamento tem capacidade para detonar uma ogiva nuclear em território norte-americano, o que causou rebuliços em Trump e também em vizinhos da região, que não desejam de forma alguma confusão por ali. Instado pelos Estados Unidos, o Conselho de Segurança da ONU, geralmente inoperante e enfraquecido, resolveu trabalhar e aprovou sanções por unanimidade contra a Coréia do Norte. Mesmo China e Rússia, que procuram preservar relações com a problemática vizinha, votaram a favor da punição.

 

É claro que há um pouco de hipocrisia e temos que encarar a dura realidade do poder. Os norte-americanos possuem milhares de ogivas nucleares e centenas de bases militares pelo mundo, fazem o que querem. Ao ratinho norte-coreano não é permitido um milésimo desta capacidade destrutiva. E la nave va.

 

A crise na região preocupa, porque as lideranças dos dois países parecem bastante imprevisíveis, inconsequentes, imaturas. Assusta também porque não há canais de comunicação, pontes entre as elites dos dois países. Em 1962, quando da crise dos mísseis em Cuba, havia linhas diretas entre Kennedy e Khrushchev que foram acionadas para que um acordo fosse alcançado. Houve um esforço coletivo, dos dois lados, pelo apaziguamento. No cenário atual, qualquer gesto mais impensado, alguma impulsividade, poderia nos levar ao precipício.

 

As tensões na península coreana alternam altos e baixos nos últimos anos. É um foco de instabilidade, cicatriz geopolítica mal costurada, uma ameaça à paz internacional. Muito em função disso, faz alguns o Brasil abriu uma Embaixada no país. Considero importante estarmos lá. Temos que nos fazer presentes em todos grandes palcos da política internacional, procurando assim desenvolver nossa própria capacidade de observação e atuação, sem depender de terceiros.

Para encerrar, noto que a Constituição de 1988 determina que “toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional.” Estou de acordo. Temos outras prioridades. Lá fora, vale lembrar, nossa diplomacia historicamente exerceu papel ativo para o desarmamento e a não proliferação de armas nucleares. Em vários momentos, incomodamos as grandes potências, criticamos, fustigamos, apontamos a hipocrisia geral de um mundo violento e desigual. Não vejo outra alternativa para nós, brasileiros, que não seja a trilha do pacifismo, até mesmo para que possamos nos dedicar a resolver nossos próprios problemas e conflitos internos.

 

“A liberação da energia nuclear mudou tudo, exceto nossa forma de pensar, e é por isso que somos conduzidos a catástrofes…” (Albert Einstein)

 

Antonio Freitas
Diplomata e gestor da
Tapera Taperá

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