Amigo é pressas coisas

Amigo é pressas coisas

para o Victor

 

Tem gente que usa camiseta de banda de rock. Ou de desenho animado. Ou de formatura da escola. Ou de político. Tem até quem faz propaganda de graça, com aquela bruta marca estampada no peito. Esse aí tinha uma camiseta com o rosto dele mesmo. Mas só pude ver a imagem quando ele se desgrudou da senhora gorducha que ele abraçava. Os dois se abraçavam. Com gosto, como velhos amigos.

 

Ela ainda estava empacotando as últimas compras e ele começou a ajudar. Muitas sacolas de plástico verde, daquelas tão fininhas que se enroscam todas. Fica difícil de abrir, e depois junta em casa aquele monte de sacola que a gente nem sabe onde guardar. Ele perguntou:

 

– Pode pôr o tomate com a banana?

– Sei lá. Você come tomate com banana?

 

Os dois eram só piada. Ele acabou trocando a banana de sacola e botando junto com a cebola. Foi a vez dela perguntar:

 

– E aí, como vai a vida?

– Você sabe, né, não dá mais pra confiar nas pessoas.

 

Ele piscou o olho e deu um sorriso maroto. Sorriso era o que não faltava nele. A amiga começou a desconfiar e já foi se desculpando com a mocinha do caixa:

 

– Lá vem ele me fazer passar vergonha de novo…

– Vê se pode, ele perguntou para a mocinha, a pessoa sai de casa para ir ao supermercado e nem para interfonar, pedir se precisa de alguma coisa, “olha, posso deixar na sua portaria”…

 

Ela explica para a caixa:

 

– Ele é assim mesmo, viu?

 

E ainda tenta se justificar com o amigo:

 

– Se não for assim, como é que eu vou encontrar você? A gente nunca mais se encontra. Só te vejo aqui. Você trabalha aqui, por acaso?

 

Nisso um funcionário de uniforme verde passa pelo caixa. Reconhece o sujeito da camiseta, vai até ele e lhe dá um abraço efusivo.

 

– Pois é, diz o homem da camiseta, você não sabia, eu estou trabalhando aqui, olha aí, já fiz até amizade com o pessoal.

 

A mocinha do caixa diz o total das compras. A senhora gorducha bota a mão na testa e avisa:

 

– Agora é que ele vai me fazer passar mais vergonha ainda!

 

E ele:

 

– Raquel, você está usando o cartão de outra pessoa de novo?

 

A mocinha vira o cartão e lê no anverso o nome da titular: Valéria.

 

– Ele já fez isso da outra vez…, a senhora explica.

 

E o amigo, com um sorriso imbatível:

 

– Sempre chego na hora de evitar essas coisas! O pessoal hoje não tem jeito mesmo, né, Raquel?

 

A senhora ainda insiste com a mocinha:

 

– Olha, eu sou a Valéria mesmo, viu?

– Mas os dois nomes são bonitos, né?, responde a atendente.

 

A senhora paga e seu amigo ajuda a carregar as sacolas. Na camiseta dele, além do próprio rosto pintado de palhaço, tem várias outras pessoas fantasiadas. Em baixo, uma chuvarada de logotipos de patrocinadores e a legenda: “I Festival de Humoristas na Praça”.

 

 

José Ignácio C. Mendes Neto

Urbanografista

jicmendes@gmail.com

www.literaturacidades.com.br

 

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